Efetivo reduzido, desvalorização e sobrecarga de trabalho levam a Polícia Civil ao colapso

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Delegado Júlio César de Souza Ferreira, vice-presidente da Associação dos Delegados de Polícia de Rondônia (ADEPOL).

De um lado, a Polícia Civil à beira de um colapso devido ao déficit de aproximadamente 65% de seu efetivo, agravado com a desvalorização e sobrecarga de trabalho de seus servidores. Do outro, uma política de segurança pública falha e inerte promovida pelo Poder Executivo Estadual. E no meio de tudo isso, a população desesperada clamando em vão por segurança.

Assaltos, furtos e tráfico de drogas já estão virando rotina na vida dos munícipes da região da Grande Ouro Preto – Mirante da Serra, Nova União, Teixeirópolis, Vale do Paraíso, Ouro Preto do Oeste, e os distritos de Rondominas e Santa Rosa. Os cidadãos estão literalmente à mercê dos criminosos, que se aproveitam do descaso do Poder Público e transformam a população em refém dessa onda desenfreada de crimes sem precedentes.

Para se ter uma ideia da situação caótica, o vice-presidente da Associação dos Delegados de Polícia de Rondônia (ADEPOL), delegado Júlio César de Souza Ferreira, informou que na Grande Ouro Preto existem apenas dois delegados, 20 agentes e cinco escrivães para atender uma população aproximada de 80 mil habitantes, quando o mínimo necessário seriam sete delegados, 80 agentes e 20 escrivães.

“Estamos literalmente enxugando gelo, já que conseguimos apenas realizar flagrantes, e diligências de flagrante de inquérito de réus presos. A verdade é que conseguimos investigar muito pouco e este pouco que conseguimos é à custa da exploração dos servidores”, desabafou o vice-presidente da ADEPOL.

Delegado Júlio César de Souza Ferreira, vice-presidente da Associação dos Delegados de Polícia de Rondônia (ADEPOL).
Delegado Júlio César de Souza Ferreira, vice-presidente da Associação dos Delegados de Polícia de Rondônia (ADEPOL).

De acordo com Júlio, como se já não bastasse o déficit de servidores, grande parte dos que ainda trabalham não está suportando a carga excessiva de plantões, muitos de 48 horas e, em certos casos, chegam ao extremo de trabalhar ininterruptamente 72 horas para suprirem a falta de servidores e tentarem mostrar resultados.

Como não poderia ser diferente, o resultado já era esperado. Servidores sobrecarregados física e mentalmente tendo que ser afastados. Segundo o delegado, existem em torno de 350 de licença-médica no âmbito estadual por não estarem suportando a sobrecarga absurda de trabalho à qual estão sendo submetidos.

“Fico profundamente entristecido em ter que escalar esses servidores ‘colaboraores’ para trabalharem manhã, tarde, noite, final de semana e feriados, privando-os de estarem com suas famílias. É triste estar na posição de delegado e vê-los se sacrificando”, ressaltou Júlio.

Reivindicação

O pagamento de horas-extras seria uma das formas de valorizar o trabalho do policial civil, explicou o delegado, frisando que esse mesmo policial irá trabalhar por três ou até mesmo por quatro em decorrência do déficit no efetivo. “Pelo menos, para que esses servidores possam receber 40 horas-extras mensais, como é pago aos policiais militares e bombeiros. Os policiais civis ficam à disposição da corporação 24 horas durante todo o mês sem poder sair da cidade onde residem e sempre são acionados de dia e de noite, a todo o momento e não recebem sequer um centavo a mais por isso”, disse.

Tentativas em vão

Júlio lembrou que tanto os delegados quanto os demais servidores da Polícia Civil, ambos filiados a associações e sindicatos, já vêm tentando negociar com o Governo há cerca de seis anos, no intuito de implantar algumas medidas que visavam evitar o caos que se tornou a segurança pública em Rondônia. Porém, neste período, o vice-presidente da ADEPOL salientou que, mesmo após inúmeras tentativas, não conseguiram lograr êxito nas negociações.

Efetivo ideal

O representante da categoria detalhou que, na atual situação em que se encontra a segurança pública em Rondônia, seria necessária a contratação de aproximadamente dois mil policiais civis e em torno de 200 delegados. Outra medida sugerida é a criação de um quadro administrativo na Polícia Civil com analistas, técnicos e administradores para exercerem a parte administrativa e, com isso, se retiraria os agentes de polícia, escrivães e delegados dos serviços burocráticos, transferindo-os para trabalharem na rua.

Termo circunstanciado

Quanto ao Termo Circunstanciado (TC) lavrado pela Polícia Militar, o vice-presidente da ADEPOL considerou tal situação inconstitucional e absurda, fazendo questão de explicar que talvez isso possa ser visto como uma forma de valorizar a atividade do policial militar. Mas, segundo Júlio, ao fazerem tal procedimento, eles podem responder por prevaricação ou abuso de autoridade, por estarem exercendo uma função cuja responsabilidade é dos escrivães de polícia.

O delegado também disse que esse decreto de autoria do governo tem o único objetivo de não investir na Polícia Civil e deixar de suprir a demanda das delegacias. Visa tirar o policial militar das ruas e, com tal atitude, diminui ainda mais o policiamento ostensivo, gerando ainda mais insegurança à população. “Você tirar o policial militar da rua para realizar função burocrática é um verdadeiro tiro no pé. Isso porque, ao invés de melhorar a situação da segurança pública, vai é piorar gradativamente a cada dia. Esta é minha opinião jurídica sobre este assunto e a da ADEPOL do Brasil e das demais entidades dos delegados de polícia”, salientou Júlio.

Segurança Pública

“Não se faz segurança pública dessa forma. Segurança vai muito além, passa por várias situações como investimento em educação, saúde, geração de emprego, fomentação da economia e, principalmente, na questão preventiva. O modelo utilizado por este governo está capenga. Tanto a Polícia Civil quanto a Polícia Militar, e até mesmo o Corpo de Bombeiros, estão com o efetivo extremamente reduzido”, argumentou o delegado e finalizou dizendo que a Polícia Civil, infelizmente, nesta situação em que se encontra, não consegue suprir a demanda devido a seu efetivo super reduzido, uma situação caótica e perigosíssima com total insegurança da população.

SESDEC

Na manhã desta segunda-feira (24) contatamos com assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Segurança Defesa e Cidadania (SESDEC), porém até a o fechamento desta matéria, não obtivemos um retorno.

Fonte: GazetaCentral

 

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